Aquarela de Grandjean de Montigny. Acervo FUNARJ - Museu da Cidade
 
O edifício onde hoje funciona a Casa França-Brasil já foi palco de alguns eventos importantes de nossa história. Mandado erguer em 1819 por D. João VI ao arquiteto Grandjean de Montigny, integrante da Missão Artística Francesa, a obra, em si, já é um importante documento. É o primeiro registro do estilo neoclássico no Rio de Janeiro que, a partir daí, invadiu nossa cidade, tingindo o barroco de nossas florestas e de nossas casas coloniais de um tom cosmopolita, à moda européia.




Bandeira do Reino Unido de Portugal e Algarves

D. João VI


BRASIL E PORTUGAL

Quando em novembro de 1807 as velas lusitanas, sob escolta inglesa, rumaram para o Brasil, não supunham as transformações que aqui suscitariam. Cerca de 15 mil pessoas desembarcaram no Rio de Janeiro a 8 de março de 1808. Um acréscimo de quase um terço numa população estimada em 50 mil pessoas. A Corte Lusa se instala e o Rio de Janeiro se torna capital portuguesa. Em 1815 o status colonial do Brasil é alterado. Surge o Reino de Portugal, Brasil e Algarves. Ainda neste ano, autoridades lusitanas encarregam o literato Joaquim Lebreton de reunir artistas franceses dispostos a acompanhá-lo ao Brasil para constituir o núcleo de uma Academia de Belas Artes, nos moldes da Academia de Paris. A introdução do pensamento ilustrado na Corte deveria acelerar o processo de modernização. Em março de 1816, chega ao Rio a Missão Francesa, dela faziam parte, entre outros, o pintor Jean-Baptiste Debret e o arquiteto Grandjean de Montigny.



Fachada da primeira Praça do Comércio do Rio de Janeiro.
 












Paço Imperial em 1808

PRAÇA DO COMÉRCIO
11 de junho de 1819. Inicia-se a construção do prédio que hoje abriga a Casa França-Brasil. Projetado por Montigny, foi criado para sediar uma Praça do Comércio.

Em 13 de maio de 1820, aniversário natalício de D. João VI, a Praça do Comércio foi inaugurada e logo se transformou em um importante centro onde circulavam
comerciantes em ascensão, alguns deles com aspirações políticas.

Quando Napoleão foi para o degredo em Santa Helena, D. João precisou voltar a Lisboa e não hesitou em levar para Portugal, além de sua corte, toda a riqueza acumulada no próspero período em que esteve na mais rica de suas possessões ultramarinas, bem como em deixar leis rígidas que garantissem controle jurídico e financeiro sobre a colônia.
Outros ventos, porém, sopravam em nossa costa, vindos da recente independência norte-americana e da Revolução Francesa. Às vésperas da partida do rei, em 1821, numa reunião à Praça do Comércio, o povo rebelou-se, solicitando, entre outras coisas, a promulgação de uma constituição liberal. A ousadia foi gravemente reprimida pelas tropas reais, com a invasão do prédio e o ataque a tiros e baionetas contra os amotinados.

Nos dias que se seguiram, o Paço Imperial levou a cabo uma devassa sem precedentes na colônia, buscando os responsáveis, sem trégua. Em protesto, os comerciantes abandonaram a Praça e afixaram uma faixa dando-lhe um novo nome: “Açougue dos Bragança”. Daí em diante pouco se sabe da repercussão do evento, que foi devidamente abafado pela corte, mas guardou a fama de ter sido a primeira revolução liberal do Rio de Janeiro. O prédio foi fechado, reabrindo para sediar a Alfândega.


Armazém Alfândega






 
Alfândega. Acervo Arquivo Nacional.
 
 


ALFÂNDEGA
Felizmente, o caminho rumo à independência não tinha volta e, menos de um ano depois, pressionado pela política interna e externa, D. Pedro I declarava a independência do Brasil. O imperador tratou logo de dar uma função ao belo prédio e o incorporou, em 1824, à Alfândega. O estamento oficial do prédio evitaria qualquer nova insurgência no local, ainda marcado pela revolta de 1821.
Algumas adaptações foram feitas para diminuir os acessos ao prédio, que agora deveria ser mais fechado para proteger as riquezas que passavam por ali. Em 1852 iniciam-se obras de remodelação da Alfândega, sob a orientação de André Rebouças e projeto do arquiteto português Raphael de Castro.

Depois de ser o centro de comércio interno, o espaço tornava a ser um local de intercâmbio comercial, agora o centralizador de todas as mercadorias que chegavam ou partiam para o exterior. O porto do Rio era, então, o principal exportador da América do Sul e recebia também os metais, fazendas, vinhos, móveis, tapeçarias e todo tipo de artigo de luxo para nossa realeza tupiniquim. Com a inauguração do porto de Santos e o aumento da produção de café no interior paulista, durante o Segundo Reinado, diminuiu a importância econômica da alfândega do Rio de Janeiro, que ainda funcionou no prédio de Montigny até 1944, quando mudou-se para um novo prédio na rua Rodrigues Alves, Centro do Rio de
Janeiro.

Placa do IPHAN. Detalhe da fachada da Casa França-Brasil.




















Interior do II Tribunal do Júri.
 
TOMBAMENTO
O reconhecimento do valor artístico e cultural do prédio pelo D.P.H. A. N. (atual IPHAN) se dá em 1938, quando realizou-se um dos primeiros tombamentos do Rio de Janeiro. Contraditoriamente, após o tombamento e a mudança da Alfândega, o espaço foi usado como depósito dos arquivos dos bancos Italo- Germanicos – provavelmente entre 1942 e 1952 - e agonizou em péssimo estado de conservação, solicitando reformas urgentes para não ir abaixo.

Mas o que vem a ser um tombamento?
Tombamento, além de significar a queda de algo, também quer dizer o registro e o inventário de bens que segundo critérios históricos e artísticos devem ser cuidados.

O tombamento, como o que foi realizado no prédio da Casa França-Brasil, significa um conjunto de ações realizadas pelo poder público com o objetivo de preservar, através da aplicação de legislação específica, bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e também de valor afetivo para a população, impedindo que venham a ser destruídos ou descaracterizados.

O tombamento é a primeira ação a ser tomada para a preservação dos bens culturais, na medida que impede legalmente a sua destruição. No entanto, a preservação somente torna-se visível para todos quando um bem cultural encontra-se em bom estado de conservação, propiciando sua plena utilização.
Referência: DPH – Departamento do Patrimônio Histórico.

Felizmente as obras foram realizadas a tempo e, depois de anos sem função, a obra de Grandjean de Montigny passou a abrigar, de 1956 a 1978, o II Tribunal do Júri.

A partir daí o prédio foi vistoriado com mais freqüência. Sofreu pequenas reformas mas não conheceu a paz. Imagine-se que no período em que abrigava o Tribunal, o arquiteto Lúcio Costa, eminente modernista brasileiro, chegou a solicitar a demolição da obra de Montigny para construção de um anexo no prédio vizinho.
Mais tarde, o bate-estaca usado na construção do Viaduto da Perimetral e o tráfego pesado subseqüente abalaram suas estruturas, causando-lhe fendas internas e externas, infiltrações e outros comprometimentos. As obras de escoramento, concluídas em 1979, tiraram o prédio de perigo, mas não resolveram seu problema de abandono.
Jack Lang e Darcy Ribeiro
 
 



Reforma da Cúpula em 1985.
 
 
A CASA
No começo da década de 1980, surgiram as primeiras idéias de um aproveitamento cultural do prédio. Foi neste mesmo período que o IPHAN realizou uma das reformas mais completas que a casa experimentou, o que só fez aumentar o interesse pelo espaço. Várias propostas foram feitas até que, em 1984, Darcy Ribeiro, então Secretário de Cultura do Estado, articulou-se com Jack Lang, Ministro da Cultura da França, e iniciou as conversas para a restauração e a implantação de um centro cultural no local, destinado ao intercâmbio cultural entre Brasil e França.

 
 
A RESTAURAÇÃO

O Estado do Rio de Janeiro, proprietário do imóvel, realizou o projeto de restauração e coordenou a aplicação dos recursos iniciais da Rhodia S/A, repassados e administrados pela Fundação Roberto Marinho. O Governo Federal contribuiu com recursos financeiros repassados à Fundação Nacional Pró-Memória, a quem foi entregue a execução do restauro arquitetônico.

Os Trabalhos de Restauração
A partir das plantas de Grandjean de Montigny, foram restabelecidas as linhas originais do prédio, com a remoção de 80% da estrutura de madeira, que estava comprometida pela ação de cupins e fungos. A estabilidade do prédio foi garantida por um reforço de concreto e aço. As pesquisas revelaram, ainda, um desnível de mais de um metro e meio em relação ao nível do solo, em torno da edificação. Foi descoberto, também, o cais onde atracou a comitiva de D. João VI, quando de sua visita à Praça do Comércio, em 1820. Do cais, manteve-se, como testemunho,
a rampa de acesso localizada ao fundo do prédio.

O piso original foi preservado e, em alguns pontos deteriorados, foram aplicadas placas de granito. Das 24 colunas em estilo dórico, 14 receberam tratamento de concreto, mantendo a mesma aparência externa. A cobertura de vidro (clarabóia)
foi reproduzida segundo as indicações de Grandjean de Montigny.

Os trabalhos de restauração revelaram o acúmulo de sete camadas de pintura na parte interna da casa, que foram raspadas até retornarem à coloração original, uma tonalidade marfim/ocre. Duas colunas ao fundo da casa permaneceram como testemunho da pintura feita na época, buscando os efeitos de peças em mármore.

As obras de restauração foram conduzidas pela SPHAN/Pró-Memória, com uma equipe de 30 técnicos e arquitetos, restauradores, arqueólogos e engenheiros, com apoio da equipe de arquitetos da Fundação Roberto Marinho, e um contingente de 40 operários.


Reforma no interior do prédio em 1985.
 
 
Restauração - Intervenções Críticas
A restauração é um momento de crítica do objeto a ser conservado. Hipótese teórica que se manifesta no próprio corpo do edifício, deve, portanto, em parte consolidar o recuperável e garantir que quaisquer acréscimos sejam reconhecíveis e reversíveis. Foram adotadas três premissas estratégicas para ganhar o novo sem perder o antigo:

Elementos que não tinham significado histórico e que distorciam e confundiam a leitura do monumento foram removidos.

As lacunas, produzidas na arquitetura original pelo tempo ou por adições espúrias, que acarretaram a interrupção da continuidade da forma e do seu ritmo foram tratadas de maneira a reduzir ou eliminar o distúrbio que causavam.

Além disso a principal peça em exposição da Casa França-Brasil é o próprio interior do prédio. Este recebeu um tratamento museográfico, ou seja, teve sua leitura e fruição conduzida e direcionada através da reformulação didática dos percursos, da criação de pontos de vista novos e de iluminação especial.

Em 1989, o projeto de utilização do espaço idealizado pelo museólogo francês Pierre Catel e pela equipe brasileira toma sua forma definitiva: a Casa França- Brasil como um espaço para múltiplas atividades culturais
Em 29 de março de 1990 a Casa França-Brasil foi inaugurada.