Arquitetura é um excerto do capítulo "Uma Questão de Ordem: A Arquitetura do Prédio de Grandjean de Montigny" pertencente ao livro "Reflexos das Luzes na Terra do Sol: sobre a teoria da arquitetura no Brasil da Independência, 1808- 1831" do arquiteto Gustavo Rocha Peixoto *.
 
 
Fachada da primeira Praça do Comércio do Rio de Janeiro.
O projeto da antiga Praça do Comércio do Rio de Janeiro foi encomendado a Grandjean de Montigny por d. João VI em 1819. Esse projeto, de certo modo singular na arquitetura brasileira, não tem propriamente antecedentes nacionais nem deita raízes. Entretanto, nele estão presentes, de forma bastante nítida, os valores do neoclassicismo e da própria burguesia ascendente - os valores perseguidos pelo arquiteto em toda a sua obra: austeridade, rigor, simplicidade, racionalismo positivo.
Sintoma de seu caráter antitradicionalista e revolucionário, o edifício se orienta, segundo os pontos cardeais, numa implantação idealista que ignora a malha tradicional da cidade. Ignora, na verdade, a própria cidade, fechando-se do exterior para formar uma praça coberta totalmente cercada. Quero dizer que Grandjean, na sua bolsa, quis impor uma nova ordem à cidade que ele havia de considerar desordenada e caótica. E notável é que essa ordem é cósmica, é haurida diretamente da natureza, de suas leis primitivas.

traçado regulador da fachada da Praça do Comércio RJ (1820).
Na fachada, o traçado regulador é ordenado com base no pentagrama regular inscrito em circunferência, o que fornece também diversas relações áureas e garante unidade lingüístico-formal com o interior. A circunferência a que pertencem os três vértices do frontão é tangente à linha de terra. O sentido de perfeição inerente à forma circular é suficientemente evidente para dispensar- nos de maiores explicações. E a reta horizontal que contém o par de vértices inferiores do pentagrama (coincidentes com a base das portas laterais do corpo central) determina a cota do patamar (e do interior todo).

É de notar que há três corpos de três vãos cada. Entretanto, os dois vãos extremos correspondem às salas laterais e o terceiro vão de cada asa lateral se abre para os peristilos entre a nave e as salas laterais, não havendo na fachada marcação dessa diferença.

Essa forma de composição com um corpo central nobre valorizado e duas asas laterais mais ou menos longas, desenvolvendo-se com ritmação binária simples, tornou-se canônica na arquitetura brasileira subseqüente.
Na fachada não se vêem ordens clássicas (no sentido de elementos), sendo o arco pleno o elemento referencial da composição que é, pelas quantidades, perfeitamente ordenada (no sentido das quantidades geométricas).



traçado regulador da planta baixa da Praça do Comércio RJ (1820).
A espacialidade interna resulta de uma composição híbrida, com eixo vertical visível somente no centro e eixo longitudinal, combinado a um eixo horizontal secundário, perpendicular aos dois primeiros, e outros eixos, não-centrais, paralelos às fachadas e definidos pela marcação das arcadas e intercolúnios, além das várias aberturas em direção às salas laterais que criam outros eixos de visadas radiantes sob a cúpula.

Todos eles criam perspectivas ‘transparentes’ que dialogam entre si e com o eixo vertical, diminuindo a força de sua significação ascensional. Mesmo o eixo longitudinal, posto ao lado dessa pluralidade de possibilidades de visada conjugadas, perde qualquer dramaticidade que pudesse resultar de suas proporções em favor de uma placidez calma e equilibrada, bem ao gosto das arquiteturas clássicas. Mais uma vez o discurso de Grandjean é ordenado e ordenador.
Cúpula e clarabóia da prédio da Casa França-Brasil.

Há, portanto, na composição o princípio do plano centrado, a cúpula, cuja significação se liga historicamente à idéia de um espaço arquitetônico intermédio entre o microcosmo humano e o macrocosmo divino ou natural.
Esse tipo de composição apresenta um sentido de transcendência, de racionalidade e individualidade, estando sempre a sugerir a presença de um poder superior.

Além do plano centrado, há presença do plano basilical a eixo longitudinal (que a arquitetura cristã tomou ao modelo pagão), cuja adoção reflete as ontologias imanentistas, e produz uma perspectiva induzida, que preconiza a existência de um corpo social organizado. No edifício de Montigny, os dois sistemas se articulam de maneira híbrida, embora o eixo longitudinal seja atenuado pelo fato de não indicar qualquer ponto marcante da composição, parcialmente barrado pelo plano difuso das colunas ao fundo.

Essas contraposições de eixos híbridos de composição que se contradizem uns aos outros, um atenuando o que o outro ‘diz’, longe de ser uma fraqueza do projeto, são uma sutileza finamente buscada a fim de garantir ao interior um aspecto de placidez equilibrada e, sobretudo, de correto ordenamento pela ausência de tensões estéticas exageradas.


 
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PEIXOTO, Gustavo Rocha. Reflexos das Luzes na Terra do Sol: sobre a teoria da arquitetura no Brasil da Independência, 1808-1831. São Paulo: ProEditores Associados, 2000.

Gustavo Rocha-Peixoto é arquiteto, especialista em estética e mestre em teoria da arquitetura, professor na graduação e na pós-graduação em Arquitetura da FAU/UFRJ. Coordenou projeto e obra de restauração da Praça do Comércio de Grandjean de Montigny, organizou para o Centro de Arquitetura e Urbanismo da Cidade do Rio de Janeiro o "Guia da arquitetura eclética do Rio de Janeiro" e colaborou no Guia da arquitetura colonial e neoclássica do Rio de Janeiro".

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